A Braskem atravessa um dos momentos mais delicados de sua história financeira. A companhia teve sua classificação de risco rebaixada pela Fitch Ratings para RD, sigla para “Restricted Default”, após não realizar o pagamento de determinadas obrigações financeiras mesmo depois do encerramento do período de cura previsto em contrato.
O movimento é mais um sinal de alerta para uma empresa que vem enfrentando forte pressão sobre sua estrutura de capital. O rebaixamento não significa, necessariamente, que a Braskem tenha deixado de operar ou que esteja em recuperação judicial. Entretanto, mostra que a companhia já chegou a um ponto em que parte de suas obrigações financeiras não está sendo honrada nos termos originalmente previstos.
A situação ganhou contornos ainda mais sensíveis porque a Braskem está negociando com seus credores uma solução para reorganizar sua estrutura de capital. Em junho, a companhia e determinadas controladas obtiveram na Justiça uma tutela de urgência que suspendeu, por 60 dias, execuções e constrições promovidas por credores convidados a participar da mediação.
Na prática, a medida criou uma espécie de janela de negociação para que a empresa tente evitar uma deterioração ainda maior do quadro financeiro. A Braskem afirma que continua buscando uma solução consensual, estruturante e ordenada com seus credores, ao mesmo tempo em que procura manter suas operações funcionando normalmente.
O problema é que a necessidade de recorrer à Justiça para ganhar tempo nas negociações, combinada ao novo rebaixamento da Fitch, mostra que a pressão sobre a companhia não é apenas pontual. O mercado está diante de uma empresa que precisa encontrar uma saída para sua dívida sem comprometer a continuidade de um negócio industrial de grande relevância.
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O problema vai além do Brasil
Enquanto a matriz enfrenta dificuldades financeiras, a Braskem também está lidando com a reestruturação de uma importante operação no México. A Braskem Idesa chegou a um acordo abrangente com seus principais stakeholders para reorganizar suas finanças e reduzir significativamente seu endividamento.
A dívida sênior da Braskem Idesa, que atualmente gira em torno de US$ 2,5 bilhões, deverá cair para aproximadamente US$ 1,6 bilhão após a conclusão da operação. Para colocar o plano em prática, a subsidiária entrou voluntariamente com um pedido de Chapter 11 nos Estados Unidos, em um processo de reestruturação judicial pré-negociado.
A expectativa é que o procedimento seja concluído em aproximadamente 60 a 90 dias. Apesar do processo judicial, a empresa afirma que as operações da Braskem Idesa continuarão normalmente e sem interrupções.
A Braskem também terá de colocar dinheiro novo no negócio. A companhia se comprometeu a contribuir com US$ 476 milhões para a reestruturação da Braskem Idesa, dos quais cerca de US$ 126 milhões já haviam sido disponibilizados antes do pedido de Chapter 11.
Uma aposta que exige caixa
O movimento mostra uma situação curiosa para a Braskem. Ao mesmo tempo em que a companhia precisa preservar liquidez e negociar com seus próprios credores, também está destinando recursos para sustentar uma operação considerada estratégica.
Depois da reestruturação, a Braskem continuará como acionista majoritária da Braskem Idesa. A aposta, portanto, é que a redução do endividamento da subsidiária permita recuperar a geração de caixa do ativo no futuro e transforme a operação mexicana em uma fonte mais saudável de resultados.
O desafio é atravessar esse período sem que a pressão financeira sobre a controladora aumente ainda mais. Para os acionistas da Braskem, esse talvez seja o ponto mais importante neste momento.
E o acionista?
A pior notícia para quem acompanha BRKM3, BRKM5 e BRKM6 é que a reestruturação da dívida pode exigir concessões importantes. Quando uma empresa chega a uma situação em que precisa negociar diretamente com seus credores e obtém proteção judicial temporária contra determinadas medidas de cobrança, o poder de barganha tende a se deslocar para quem emprestou o dinheiro.
Isso não significa automaticamente que haverá perda para os acionistas, diluição ou uma recuperação judicial da Braskem. Mas aumenta a incerteza sobre o valor econômico das ações e sobre como ficará a estrutura de capital depois das negociações.
O mercado, portanto, terá de acompanhar menos as promessas de normalização e muito mais os números concretos: geração de caixa, redução da dívida, acesso a financiamento, custos financeiros e os termos que serão efetivamente acordados com os credores.
A Braskem ainda tem ativos relevantes, escala industrial e operações que continuam funcionando. O problema é que, em empresas muito endividadas, ter bons ativos não é suficiente. É preciso transformar esses ativos em caixa e, principalmente, fazer com que esse caixa seja suficiente para atender às obrigações financeiras.
Por enquanto, a companhia tenta ganhar tempo para construir essa saída. A Fitch, porém, acaba de lembrar ao mercado que o tempo está ficando mais caro. A Braskem ainda não está sem alternativas, mas está claramente em maus lençóis — e a forma como resolverá sua dívida poderá definir não apenas o futuro financeiro da empresa, mas também o destino de seus acionistas.


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