A Índia quer se tornar uma potência na fabricação de baterias para armazenamento de energia, mas o país ainda terá de esperar mais de uma década para reduzir de forma significativa sua dependência de fornecedores estrangeiros. Essa é a conclusão de um novo estudo da Wood Mackenzie, que aponta uma combinação de atrasos tecnológicos, dificuldades de financiamento e problemas de execução como os principais obstáculos à ambição indiana.
Segundo o relatório “Chasing Self-Sufficiency: Cost of Building an Indigenous Battery Storage Supply Chain in India”, a fabricação doméstica de baterias representa atualmente menos de 1% dos cerca de 260 GWh de capacidade contratada por meio de licitações competitivas em 2026. Na prática, isso significa que a expansão do armazenamento de energia no país continuará fortemente dependente de importações.
A situação contrasta com os planos de longo prazo do governo indiano. Mais de 226 GWh de capacidade de fabricação de células foram anunciados para entrar em operação até 2035. No entanto, a Wood Mackenzie avalia que a distância entre os projetos anunciados e uma cadeia produtiva efetivamente competitiva ainda é grande.
China domina cadeia global
O tamanho do desafio fica mais evidente quando a Índia é comparada à China. Em 2026, o país asiático tinha apenas 2 GWh de capacidade de fabricação de células de bateria em operação, enquanto a China acumulava impressionantes 2.695 GWh.
A China também domina entre 85% e 98% da capacidade mundial de fabricação dos principais componentes das baterias, incluindo cátodos, ânodos, separadores e eletrólitos. Para a Índia, reduzir essa diferença exigirá a construção de um ecossistema industrial muito mais completo.
“A diferença entre a intenção da política e a capacidade operacional é grande”, afirmou Ankita Chauhan, diretora da Wood Mackenzie. Segundo ela, os investimentos devem começar pelos componentes mais próximos da etapa final da cadeia produtiva, enquanto a construção de uma indústria de células realmente autossuficiente exigirá pelo menos uma década.
Índia tem vantagem de custo
Apesar dos problemas, o país possui uma vantagem que pode ajudar a sustentar sua estratégia: o custo de produção.
A Wood Mackenzie estima que as células fabricadas na Índia atualmente custem entre 25% e 40% mais do que as importadas, principalmente devido à menor escala de produção, ao custo elevado do financiamento e à falta de fornecedores locais.
No entanto, a estrutura de custos indiana é considerada competitiva no cenário internacional. Segundo o estudo, o país apresenta uma vantagem de custo de 154% em relação ao Japão e de 9% frente à Coreia do Sul, ficando atrás apenas da China entre os principais polos globais de fabricação.
O problema é que competir com a China exige mais do que mão de obra e custos potencialmente favoráveis. A Índia ainda precisa desenvolver fornecedores, tecnologia, escala e infraestrutura para transformar essa vantagem em produção competitiva.
Primeiro os componentes, depois as células
Diante das dificuldades, a estratégia mais provável para os próximos anos será começar pela parte final da cadeia. A expectativa é de que a Índia priorize, nos próximos dois a três anos, a produção doméstica de contêineres, sistemas de gerenciamento de energia, sistemas SCADA e pacotes de baterias.
A estratégia já conta com um incentivo regulatório. Novas licitações para projetos de armazenamento de energia em baterias em escala de rede passaram a exigir 20% de conteúdo doméstico.
Entretanto, ampliar essa exigência para 100% teria um custo significativo. De acordo com a modelagem da Wood Mackenzie, levar o conteúdo doméstico de menos de 20% para a totalidade de um projeto de referência de 100 MW, com duas horas de armazenamento, acrescentaria cerca de 30% ao prêmio total de CAPEX.
Gigafábricas enfrentam teste financeiro
Outro obstáculo está na própria rentabilidade das fábricas. Até 2026, apenas quatro empresas haviam encomendado gigafábricas na Índia, enquanto outros projetos permaneciam em diferentes estágios de planejamento ou início de produção.
A escala é determinante para a viabilidade econômica. Segundo a Wood Mackenzie, uma fábrica de 5 GWh pode operar com Ebitda negativo de 10%. O ponto de equilíbrio seria alcançado somente a partir de 10 GWh, enquanto margens positivas exigiriam capacidade de pelo menos 20 GWh.
Além disso, quase todos os fabricantes indianos ainda dependem de licenças tecnológicas de empresas chinesas ou sul-coreanas. Essa dependência reduz o controle das companhias sobre custos, preços e cadeias de fornecimento.
A fabricação de células deverá avançar gradualmente nos próximos dois a cinco anos, mas ainda com forte dependência de insumos importados. Já o desenvolvimento de uma cadeia completa, incluindo capacidade de refino, deve levar mais de dez anos.
Para Priya Shrivastava, analista sênior de pesquisa da Wood Mackenzie, a Índia tem uma posição de custo competitiva e pode se beneficiar da busca global por diversificação das cadeias de fornecimento. O desafio, contudo, será transformar rapidamente essa vantagem em capacidade industrial antes que outros países emergentes ocupem esse espaço.
A conclusão do relatório é clara: a Índia já tem escala de demanda, apoio político e uma estrutura de custos capaz de atrair investimentos. O que falta é transformar anúncios em fábricas, dependência tecnológica em conhecimento próprio e projetos isolados em uma cadeia produtiva completa. Até lá, a autossuficiência em baterias continuará sendo uma promessa para a próxima década — e não uma realidade imediata.


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