Biomethane plant with large storage tanks, pipelines, and equipment in green countryside

A transição energética brasileira não acontece apenas nos grandes projetos de energia solar, eólica ou nos carros elétricos. Uma parte importante dessa mudança está acontecendo em áreas mais próximas do cotidiano — no combustível que abastece os veículos, nos resíduos que podem virar energia e nas alternativas ao diesel e ao gás de origem fóssil.

É nesse cenário que a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) lança a Análise de Conjuntura dos Biocombustíveis – Ano Base 2025, publicação que reúne os principais acontecimentos, tendências e indicadores do mercado brasileiro de combustíveis renováveis ao longo do ano passado.

O documento, elaborado em formato de Nota Técnica, analisa a produção, o consumo e a competitividade de diferentes fontes, como etanol, biodiesel, bioeletricidade e biogás. Também aborda tecnologias consideradas estratégicas para a descarbonização do setor de transportes e da indústria, entre elas os Combustíveis Sustentáveis de Aviação (SAF) e o diesel verde.

Entre os temas que ganham relevância está o biometano, combustível produzido a partir da purificação do biogás e que pode aproveitar resíduos da agropecuária, do saneamento e de atividades industriais.

A perspectiva ajuda a explicar por que o biometano começa a ocupar um espaço maior nas discussões sobre o futuro energético do país: ele reúne dois problemas que o Brasil precisa enfrentar — o destino dos resíduos e a necessidade de reduzir as emissões — em uma mesma solução.

Mais do que substituir combustíveis

O potencial dos biocombustíveis vai além da simples substituição de um combustível fóssil por outro de menor emissão.

A produção de etanol, biodiesel, biogás e biometano está ligada a cadeias produtivas espalhadas pelo território brasileiro e pode gerar efeitos econômicos que vão da atividade agrícola à indústria, passando pelo transporte, pelo saneamento e pela geração de energia.

No caso do biometano, esse potencial é especialmente interessante porque a matéria-prima pode estar onde tradicionalmente existe um problema ambiental: nos resíduos.

Restos da produção agropecuária, resíduos orgânicos e efluentes podem ser utilizados para produzir biogás. Depois de purificado, o gás pode se transformar em biometano, com características que permitem seu uso em aplicações semelhantes às do gás natural em determinados equipamentos e veículos.

Isso abre uma possibilidade relevante para o Brasil: transformar resíduos em combustível e, ao mesmo tempo, reduzir emissões de gases de efeito estufa.

O desafio é transformar potencial em escala

O Brasil possui condições favoráveis para ampliar a produção de combustíveis renováveis. A força do agronegócio, a disponibilidade de biomassa e a experiência acumulada com etanol e biodiesel formam uma base que poucos países possuem.

Mas potencial não é sinônimo de mercado consolidado.

Para que novas tecnologias ganhem escala, são necessários investimentos, infraestrutura, segurança regulatória, consumidores dispostos a contratar e políticas públicas capazes de reduzir barreiras iniciais.

É justamente por isso que análises de conjuntura como a produzida pela EPE são importantes. Elas ajudam a identificar não apenas o que cresceu, mas também os obstáculos que podem limitar a expansão dos biocombustíveis nos próximos anos.

Biometano no centro de uma nova fronteira

A discussão sobre biometano ganha força em um momento em que o Brasil busca alternativas para reduzir as emissões em setores de difícil eletrificação.

O transporte pesado é um dos exemplos. Caminhões e outros veículos de grande porte exigem elevada quantidade de energia e enfrentam desafios específicos para uma eletrificação em larga escala.

Nesse contexto, combustíveis renováveis capazes de utilizar parte da infraestrutura existente podem ter papel importante na transição.

O biometano também pode contribuir para diversificar a oferta de gás no país, reduzindo a dependência de fontes fósseis em determinados usos.

A questão, portanto, não é apenas ambiental.

É também econômica e estratégica.

Quanto maior a diversidade de fontes disponíveis, maior tende a ser a capacidade do país de construir uma matriz energética menos vulnerável a choques de oferta e às oscilações dos mercados internacionais.

SAF e diesel verde ampliam o horizonte

A análise da EPE também chama atenção para duas frentes que deverão ganhar importância nos próximos anos: os Combustíveis Sustentáveis de Aviação (SAF) e o diesel verde.

A aviação é um dos setores mais difíceis de descarbonizar. Aviões precisam transportar grandes quantidades de energia com baixo peso, o que limita, pelo menos no horizonte atual, o espaço para soluções elétricas em voos de maior distância.

O SAF aparece justamente nesse espaço.

Já o diesel verde pode ajudar a reduzir as emissões no transporte e em outros segmentos que continuam dependentes de combustíveis líquidos.

Essas tecnologias ainda enfrentam desafios de custo, produção em escala e disponibilidade de matérias-primas. Mas o interesse crescente mostra uma mudança importante: a transição energética deixou de ser uma discussão restrita à eletrificação.

O futuro da energia será provavelmente mais diversificado — e os biocombustíveis terão uma parte relevante dessa equação.

Um país que transforma biomassa em energia

A experiência brasileira com biocombustíveis é anterior ao atual debate sobre transição energética.

O etanol produzido a partir da cana-de-açúcar já faz parte da matriz de transportes há décadas. O biodiesel também se consolidou como componente importante do mercado de combustíveis.

O que muda agora é a escala e a variedade das possibilidades.

Resíduos que antes eram vistos principalmente como passivos ambientais podem se transformar em matéria-prima. Subprodutos agrícolas podem ganhar valor energético. Tecnologias como o biometano podem aproximar setores que tradicionalmente eram tratados separadamente: energia, agricultura, indústria e saneamento.

Essa integração pode ser uma das maiores vantagens competitivas do Brasil na transição energética.

Mas também exige planejamento.

A expansão dos biocombustíveis precisa ser acompanhada pela análise da disponibilidade de matérias-primas, dos impactos ambientais, da infraestrutura necessária e da viabilidade econômica de cada alternativa.

A transição também é uma questão de oportunidade

A Análise de Conjuntura dos Biocombustíveis – Ano Base 2025 não se limita a registrar o que aconteceu no setor. A publicação também procura oferecer uma visão prospectiva sobre o papel dos combustíveis renováveis na redução das emissões e no desenvolvimento sustentável brasileiro.

Esse olhar para o futuro é particularmente importante porque a transição energética não será feita com uma única tecnologia.

O Brasil provavelmente precisará combinar eletrificação, biocombustíveis, gás, hidrogênio e outras soluções, escolhendo para cada setor a alternativa mais eficiente e economicamente viável.

Nesse cenário, o biometano pode deixar de ser visto como um nicho e passar a ocupar um espaço estratégico.

A lógica é simples: se o país tem resíduos, por que não transformá-los em energia?

A resposta, entretanto, depende de algo mais difícil do que produzir o combustível: criar mercado para ele.

É esse o desafio que se coloca para os próximos anos.

O Brasil já possui matéria-prima, conhecimento e uma experiência histórica relevante com biocombustíveis. Agora precisa transformar esse potencial em escala, investimento e competitividade.

O lançamento da análise da EPE ocorre justamente nesse momento, em que a transição energética deixa de ser apenas uma promessa de longo prazo e começa a exigir decisões concretas sobre quais tecnologias receberão investimentos, infraestrutura e espaço no mercado.

No caso do biometano, a oportunidade parece especialmente brasileira: usar aquilo que hoje é tratado como resíduo para produzir aquilo que amanhã poderá ser parte da solução energética.

Deixe um comentário

Quote of the week

“People ask me what I do in the winter when there’s no baseball. I’ll tell you what I do. I stare out the window and wait for spring.”

~ Rogers Hornsby