Empresa ligada a aliados do presidente americano prepara operação de perfuração em região que pode esconder bilhões de barris; governo local diz que equipamentos chegaram sem autorização
A corrida de Donald Trump pela Groenlândia acaba de ganhar um ingrediente que pode mudar o tamanho da disputa: petróleo. Uma empresa ligada a pessoas próximas ao presidente dos Estados Unidos levou equipamentos de perfuração para uma área considerada potencialmente rica em reservas, mas o governo groenlandês afirma que a movimentação ocorreu sem as autorizações necessárias. O episódio coloca dinheiro, recursos naturais e soberania no centro de uma das disputas geopolíticas mais sensíveis do Ártico.
Segundo a RFI, da França, equipamentos da White Flame Energy foram transportados no fim de julho para Nerlerit Inaat, no leste da Groenlândia. Cerca de 15 contêineres e máquinas pesadas teriam como destino final a região de Jameson Land, apontada como uma das áreas de maior potencial petrolífero do território.
O governo da Groenlândia afirmou que a empresa transferiu os equipamentos sem obter previamente as permissões necessárias para a operação. As autoridades locais informaram que uma advertência formal seria encaminhada à companhia.
A conexão com os Estados Unidos torna o caso ainda mais explosivo. A White Flame Energy foi adquirida em 2024 pela britânica 80 Mile PLC, que posteriormente firmou uma parceria com a Greenland Energy, empresa americana criada em 2025 por pessoas próximas a Trump, entre elas Larry Sweet e Carol Craig.
O projeto prevê uma primeira perfuração de aproximadamente 3.500 metros de profundidade. A operação está planejada para outubro, desde que sejam concedidas as autorizações necessárias.
E há muito dinheiro potencialmente envolvido. De acordo com estimativas da própria Greenland Energy, Jameson Land poderia concentrar cerca de 13 bilhões de barris de petróleo. Se confirmado, trata-se de um ativo de enorme valor estratégico em um momento de crescente disputa internacional por energia e recursos naturais no Ártico.
A estimativa, porém, não equivale a uma reserva comprovada ou a petróleo já disponível para produção. Ainda seria necessário confirmar a existência, a qualidade e a viabilidade econômica dos recursos por meio de exploração e estudos técnicos.
Mesmo assim, a coincidência com a ofensiva política de Trump não passa despercebida. O presidente americano vem defendendo que os Estados Unidos assumam o controle da Groenlândia e, em 30 de julho, afirmou que o território estaria sob domínio americano antes do fim de seu mandato, em 2029.
Agora, a disputa ganha uma dimensão econômica ainda mais evidente. Enquanto Trump insiste na importância estratégica da Groenlândia, empresas associadas a investidores americanos avançam nos preparativos para procurar petróleo em uma região que pode esconder uma riqueza bilionária.
A reação local mostra o tamanho da resistência. Moradores de Ittoqqortoormiit, comunidade próxima à área de exploração, protestaram em julho contra as possíveis perfurações. Entre as preocupações estão os riscos ambientais e os impactos sobre atividades tradicionais, como a caça.
O caso transforma a Groenlândia em uma espécie de fronteira energética do século XXI. O território reúne posição estratégica no Ártico, possíveis reservas de petróleo e minerais críticos e crescente interesse das grandes potências.
E a pergunta que começa a ganhar força é inevitável: a disputa de Trump pela Groenlândia é apenas uma questão geopolítica — ou existe também uma corrida bilionária pelo petróleo escondido sob o gelo?

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