O setor de energia eólica dos Estados Unidos entrou em uma corrida contra o relógio. Com a retirada gradual dos créditos fiscais federais, desenvolvedores estão acelerando a construção de parques eólicos para garantir os incentivos, enquanto projetos ainda em fase de planejamento enfrentam um cenário cada vez mais incerto, marcado por atrasos em licenças, desafios na cadeia de suprimentos e maior dificuldade para avançar até a etapa de construção.
A avaliação é da Wood Mackenzie, que aponta uma divisão cada vez mais clara no mercado americano. De um lado, projetos já maduros ganham velocidade para aproveitar a janela restante dos incentivos. De outro, a carteira de novos empreendimentos perde força à medida que licenciamento, financiamento, contratos de equipamentos e conexão à rede se tornam obstáculos mais relevantes.
As perspectivas para o curto prazo, entretanto, ainda são positivas. A previsão de novas construções de projetos eólicos greenfield aumentou 5% em relação ao trimestre anterior. A expectativa é que as adições anuais de capacidade atinjam o pico em 2027, impulsionadas principalmente pela geração offshore.
O problema é o que vem depois. Segundo a Wood Mackenzie, esse ritmo dificilmente será sustentado, porque as empresas estão concentrando esforços na execução dos projetos que já estão em condições de avançar, em vez de ampliar a preparação de novos empreendimentos.
Pressa para garantir créditos
A urgência aumentou com os prazos para acesso aos incentivos fiscais. Projetos que iniciaram fisicamente a construção antes de 4 de julho de 2026 precisam entrar em operação até 31 de dezembro de 2030 para garantir os créditos.
Já os empreendimentos que não conseguiram cumprir o prazo para começar a construção precisam estar totalmente operacionais até o fim de 2027 para ter acesso aos incentivos previstos.
Na prática, a estratégia do setor mudou. Ter um projeto no pipeline deixou de ser suficiente. Para aproveitar os créditos, os desenvolvedores precisam acelerar uma série de etapas simultaneamente, incluindo licenciamento, contratos de fornecimento, financiamento, compra de turbinas e conexão à rede.
Os efeitos já aparecem nos indicadores de atividade. Os inícios de construção cresceram 8% na comparação anual no primeiro trimestre de 2026. Mais expressivo ainda foi o avanço nos pedidos firmes de turbinas, que superaram em mais de cinco vezes o nível registrado no primeiro trimestre de 2025.
O movimento mostra que os desenvolvedores estão tentando transformar projetos em construção efetiva antes que a janela dos incentivos se feche.
Mercado de duas velocidades
A Wood Mackenzie identifica a formação de um mercado de “duas velocidades”. Os projetos mais avançados, que já possuem licenças, contratos de fornecimento e conexão à rede, passaram a valer mais para os desenvolvedores porque apresentam um caminho mais claro para entrar em operação dentro dos prazos.
Os projetos menos maduros, por outro lado, enfrentam maior risco de atrasos. A demora na obtenção de licenças federais está empurrando parte desses empreendimentos para o fim da década.
Como consequência, a expectativa para o pico de novas instalações de geração eólica terrestre foi deslocada de 2027 para 2028.
Essa mudança não significa necessariamente uma interrupção do crescimento, mas aponta para uma desaceleração estrutural depois da atual corrida para colocar projetos em operação.
Data centers aumentam a demanda por energia
Enquanto a oferta enfrenta obstáculos, a demanda por eletricidade continua crescendo nos Estados Unidos. Um dos principais motores desse movimento é a expansão dos data centers, impulsionada principalmente pela inteligência artificial.
A demanda por contratos corporativos de compra de energia, conhecidos como PPAs, vem ganhando força. Um exemplo citado pela Wood Mackenzie é o acordo de 1,9 GW firmado entre Google e Xcel Energy no primeiro trimestre de 2026.
O movimento pode dar às empresas de tecnologia um papel cada vez mais importante na contratação de nova capacidade eólica. Isso ocorre em um momento em que algumas aquisições de energia eólica por concessionárias de serviços públicos estão diminuindo.
Com o consumo de eletricidade aumentando, grandes empresas podem se tornar uma fonte relevante de demanda para novos parques, ajudando a sustentar investimentos mesmo diante da redução dos incentivos.
Eólica offshore ganha força, mas enfrenta incertezas
No segmento offshore, o cenário de curto prazo é mais favorável. A carteira de projetos em construção deve proporcionar um impulso importante à oferta à medida que os empreendimentos se aproximam da conclusão.
Ainda assim, o setor permanece exposto a riscos políticos e comerciais.
Mais de 2.900 quilômetros quadrados de concessões offshore entraram em acordos de rescisão durante o primeiro semestre de 2026. Além disso, a Wood Mackenzie estima que US$ 2,7 bilhões em receitas provenientes de indenizações federais deverão ser redirecionados para projetos de energia convencional, geotérmica e combustíveis fósseis.
O movimento mostra como a política energética americana pode alterar rapidamente as perspectivas de diferentes fontes de geração.
Repotenciação pode virar alternativa
Se a construção de novos parques perder força depois de 2030, uma parte importante do crescimento da energia eólica americana poderá vir de usinas já existentes.
A Wood Mackenzie estima que cerca de 81 GW de capacidade eólica terão pelo menos 15 anos de operação até 2035. Grande parte desse parque está concentrada no Texas, nas Grandes Planícies e no Centro-Oeste.
Essas usinas oferecem uma vantagem importante: já contam com terrenos, conexões à rede e histórico de licenciamento. Em vez de começar um empreendimento do zero, os desenvolvedores podem substituir turbinas antigas por equipamentos maiores, mais eficientes e capazes de produzir mais energia.
Esse processo, conhecido como repotenciação, pode reduzir custos e prazos e se tornar uma das principais alternativas para manter o crescimento do setor após o fim dos incentivos.
Além disso, o avanço tecnológico e a melhora dos fatores de capacidade podem aumentar a competitividade dos projetos, reduzindo a dependência dos créditos fiscais.
O desafio começa depois de 2030
Para a Wood Mackenzie, o mercado eólico americano não deve sofrer uma ruptura repentina em 2030. A transição será gradual e deve favorecer projetos capazes de demonstrar viabilidade comercial mesmo sem depender exclusivamente de incentivos públicos.
A combinação entre repotenciação, contratos de longo prazo com grandes consumidores de energia e aumento da demanda por eletricidade pode abrir novos caminhos para o setor.
O cenário, portanto, é de uma indústria que corre para aproveitar os últimos anos de uma política de incentivos enquanto precisa se preparar para uma realidade diferente. Os projetos mais avançados têm uma janela clara para crescer; os demais terão de superar um ambiente mais exigente de licenciamento, financiamento e conexão à rede.
A corrida contra o relógio não significa necessariamente o fim da expansão eólica nos Estados Unidos. Significa, sobretudo, que o setor terá de encontrar novas formas de crescer quando o principal impulso dos últimos anos — os créditos fiscais — começar a desaparecer.
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